Essa é a primeira de uma série de reflexões que tem por objetivo expor alguns aspectos que sustentam o meu pensamento político. São fragmentos da obra "Reflexões para a Vida Pública: A cultura da fraternidade e a política" organizada por Antonio Maria Baggio, professor de Ética Social na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), e publicado no Brasil pela Editora Cidade Nova. Recomendo como livro de cabeceira para todos os que atuam na Política.
(...)"Da instituição originaria da unidade como vocação universal decorre um primeiro ponto de pensamento político: a comunidade humana é o primeiro pertencimento fundamental de todo homem. O bem, a verdade e a justiça que cada um busca como resposta às próprias perguntas pessoais têm a medida infinitamente grande da humanidade toda. A resposta para cada um depende da contribuição de todos; as potencialidades presentes em cada um só se tornam realidade na comunhão com os demais.
(...)"Da instituição originaria da unidade como vocação universal decorre um primeiro ponto de pensamento político: a comunidade humana é o primeiro pertencimento fundamental de todo homem. O bem, a verdade e a justiça que cada um busca como resposta às próprias perguntas pessoais têm a medida infinitamente grande da humanidade toda. A resposta para cada um depende da contribuição de todos; as potencialidades presentes em cada um só se tornam realidade na comunhão com os demais.
É verdade que a personalidade de cada um de nós se expressa no sermos membro de uma família, de um povo, de uma cultura. O homem não pode ser homem “em geral”, mas tem necessidade-como pessoa – de pertencer a comunidades menores, nas quais desenvolve relações diretas com os outros. Mas realizar a própria personalidade significa tornar-se, ao mesmo tempo, mais si mesmo e mais homem. A dimensão particular é uma condição para que cada um possa realizar a própria humanidade, ou seja, a própria dimensão universal, e não para que permaneça fechado no particular. É sempre a comunidade humana – o ser homem – o ponto de partida e de referência. O homem é homem, por assim dizer, em largura (abrindo-se a toda a comunidade humana) e em profundidade (tornando-se cada vez mais homem).
Também a organização política de cada povo tem sentido se é não apenas a estrutura que sustenta sua identidade particular, mas também instrumento de unidade com toda a humanidade. Esta, sob o impulso da fraternidade universal, tende a alcançar uma organização política unitária, que devera ser de unidade na distinção, quer dizer, no respeito de todos os povos. Por isto, ano deveria surpreender que isso se alcance depois da organização particular, pois a verdadeira unidade não é o resultado do domínio de um Estado sobre os outros, mas só pode ser fruto de escolhas livres de povos irmãos. A fraternidade leva à afirmação de um principio importante: a humanidade é a primeira comunidade também do ponto de vista político.
Isso implica que nenhuma decisão política de uma cidade ou de um país pode ser tomada se provocar dano, direto ou indireto, a outra cidade ou país. De fato, já existe uma interconexão mundial, que requer uma atenção obrigatória para as conseqüências mundial, que requer uma atenção obrigatória para as conseqüências mundiais de cada escolha individual. O amor por minha cidade e por meu país me faz entender o amor que os outros tem pela cidade ou país deles e serve para nos preparar a todos para alcançarmos a dimensão do amor pela humanidade, no qual toda pessoa e todo povo se expressam plenamente. O amor universal não é genérico; por isso, ele deve ser alcançado a partir do amor por mim mesmo, pela minha cidade e pelo meu país. Tenho de aprender a ser parte de alguma coisa para ser parte do tudo. Mas não devo fechar meu horizonte antes de te-lo alcançado.
Assim como o amor endereçado a mim mesmo não opõe a que eu ame os outros – pelo contrario, cria condições para isso -, também o amor pela própria comunidade, a valorização de sua identidade e de suas tradições, não pode tornar-se politicamente um bairrismo. Se a humanidade é a primeira comunidade política, então existe um bem comum da humanidade, que não pode ser negado em nome daquilo eu, em determinado momento, aparece como o interesse de uma comunidade particular. Aquilo que parece apresentar-se como interesse nem sempre é realmente um bem. A tarefa da política não é representar imediatamente um interesse. Se fizesse isso, ela seria subordinada à economia ou a outros campos da atividade humana. Sua tarefa é inserir os interesses num projeto que assegure o bem de uma comunidade local junto com o bom da comunidade nacional e da internacional. Enquanto os interesses imediatos das diferentes comunidades podem estar em conflito entre si, o bem comum sempre sustenta o bem comum.
Também a organização política de cada povo tem sentido se é não apenas a estrutura que sustenta sua identidade particular, mas também instrumento de unidade com toda a humanidade. Esta, sob o impulso da fraternidade universal, tende a alcançar uma organização política unitária, que devera ser de unidade na distinção, quer dizer, no respeito de todos os povos. Por isto, ano deveria surpreender que isso se alcance depois da organização particular, pois a verdadeira unidade não é o resultado do domínio de um Estado sobre os outros, mas só pode ser fruto de escolhas livres de povos irmãos. A fraternidade leva à afirmação de um principio importante: a humanidade é a primeira comunidade também do ponto de vista político.
Isso implica que nenhuma decisão política de uma cidade ou de um país pode ser tomada se provocar dano, direto ou indireto, a outra cidade ou país. De fato, já existe uma interconexão mundial, que requer uma atenção obrigatória para as conseqüências mundial, que requer uma atenção obrigatória para as conseqüências mundiais de cada escolha individual. O amor por minha cidade e por meu país me faz entender o amor que os outros tem pela cidade ou país deles e serve para nos preparar a todos para alcançarmos a dimensão do amor pela humanidade, no qual toda pessoa e todo povo se expressam plenamente. O amor universal não é genérico; por isso, ele deve ser alcançado a partir do amor por mim mesmo, pela minha cidade e pelo meu país. Tenho de aprender a ser parte de alguma coisa para ser parte do tudo. Mas não devo fechar meu horizonte antes de te-lo alcançado.
Assim como o amor endereçado a mim mesmo não opõe a que eu ame os outros – pelo contrario, cria condições para isso -, também o amor pela própria comunidade, a valorização de sua identidade e de suas tradições, não pode tornar-se politicamente um bairrismo. Se a humanidade é a primeira comunidade política, então existe um bem comum da humanidade, que não pode ser negado em nome daquilo eu, em determinado momento, aparece como o interesse de uma comunidade particular. Aquilo que parece apresentar-se como interesse nem sempre é realmente um bem. A tarefa da política não é representar imediatamente um interesse. Se fizesse isso, ela seria subordinada à economia ou a outros campos da atividade humana. Sua tarefa é inserir os interesses num projeto que assegure o bem de uma comunidade local junto com o bom da comunidade nacional e da internacional. Enquanto os interesses imediatos das diferentes comunidades podem estar em conflito entre si, o bem comum sempre sustenta o bem comum.
É nessas situações que se evidencia um lado, tem uma intuição do bem comum e se projeta nele, como resposta à própria vocação interior; de outro lado, ele recebe continuamente pressões dos interesses particulares, embora legítimos, os quais podem satisfação e pelos quais corre o risco de ser engolido, perdendo o horizonte do bem comum. Também nesse caso, a fraternidade pode se revelar determinante. Reconhecer mutuamente as razoes dos diversos interesses legítimos representados ajuda a se elevar da mera batalha para que prevaleça um dos interesses, a fim de se tomar o caminho político capaz de conciliá-los. A fraternidade liberta a política, ativando o método que consente passar do interesse particular para o bem comum.
A idéia da humanidade como comunidade política não é nova, mas encontrou variadas expressões teóricas ao longo dos séculos. Lembramos apenas Francisco Suarez, que em 1612, escrevia:
A idéia da humanidade como comunidade política não é nova, mas encontrou variadas expressões teóricas ao longo dos séculos. Lembramos apenas Francisco Suarez, que em 1612, escrevia:
Os gêneros humanos, apesar de ser dividido em vários povos e reinos, mantêm sempre certa unidade, não apenas especifica, mas também quase política e moral, que se exprime no preceito natural do amor mutuo e na misericórdia estendida a todos os homens, inclusive os estrangeiros, qualquer que seja seu pensamento. Por isso, embora todo Estado – republica ou reino – seja em si uma comunidade soberana, subsistente nos seus membros, cada um deles é, de alguma forma, igualmente membro da comunidade universal, que compreende todo gênero humano. (Suarex Granatensi, 1613, p. 113)
A novidade de hoje consiste no fato de que – na era da globalização não só econômica, mas também política e cultural – amadurecem as condições históricas para a realização da comunidade política da humanidade. A essa situação histórica corresponde um ideal – ideal da unidade – que, por meio da fraternidade, pode fazer com que o processo unitário se realize no respeito de todos os valores das pessoas e dos povos. A unidade é o novo horizonte do engajamento político concreto atual. Uma política que não construa a unidade, que não faça viver em si a humanidade inteira como sujeito trai-se a si mesma.
(Baggio, Antonio Maria, Reflexões para a Vida Publica – Cidade Nova – p. 32-34)
A novidade de hoje consiste no fato de que – na era da globalização não só econômica, mas também política e cultural – amadurecem as condições históricas para a realização da comunidade política da humanidade. A essa situação histórica corresponde um ideal – ideal da unidade – que, por meio da fraternidade, pode fazer com que o processo unitário se realize no respeito de todos os valores das pessoas e dos povos. A unidade é o novo horizonte do engajamento político concreto atual. Uma política que não construa a unidade, que não faça viver em si a humanidade inteira como sujeito trai-se a si mesma.
(Baggio, Antonio Maria, Reflexões para a Vida Publica – Cidade Nova – p. 32-34)