2º Tema:
"... A unidade é uma vocação universal, e todo homem tende a ela por ser, interiormente, impelido pela fraternidade, por se voltado para o outro. Assim, reconheço no outro a minha mesma vocação, vivida a seu modo, que devo aprender a conhecer, respeitar e ajudar. O que há de bom no seu desígnio deveria ser tão importante para mim quanto o que há de bom no meu, pois só consigo atingir meu objetivo se também todos os outros conseguirem atingi-lo. E isso vale igualmente para a política, na qual o outro é o outro homem político, o outro programa, o outro partido. Ao longo da historia, conheceremos fenômenos políticos essencialmente negativos, portadores de terror, de ditadura e de violência. E também hoje, no trabalho político diário, podemos deparar com visões de mundo e projetos concretos que negam os valores universais. Nesses casos, a consciência política requer a critica e a oposição concreta e declarada inclusive perante os próprios aliados.
Mas, fora esses casos, existe em todo “outro” da política, para alem de possíveis erros, algo que vale, que no fim, no desígnio cumprido da humanidade, permanecera. É o motivo profundo que o impeliu para a política, são seus valores, dos quais não pode prescindir, porque é com eles que os meus se completam.
O outro na política não é o inimigo. Pode tornar-se, se assim quisermos, mas, antes de tudo e essencialmente, ele é aquele do qual necessito, pois minha idéia só se realiza com ele. É afim de percorrer esse caminho comum que a fraternidade requer que seja ordenada na política. A política não se tornou necessária porque o mal existe e os conflitos são inevitáveis. O mal e os conflitos existem – e a política deve necessariamente enfrenta-la – mas, antes deles, é a fraternidade que exige a organização política. A política nasce não por temor ao inimigo, mas pelo amor ao amigo.
Só vêem o inimigo como necessário aquelas posições ideológicas que, por terem perdido a própria força ou por não serem portadoras de um projeto realmente humano, precisam do conflito para se alimentarem e do inimigo para se afirmarem,em oposição à própria identidade. O inimigo, a violência (inclusive aquela apenas verbal ou teórica) e o mal não são necessários. Podem ser inevitáveis, no sentido de que, em certas situações, não podemos impedir os outros de fazerem o mal e de se comportarem como inimigos. Mas os inimigos não são necessários para a construção de uma cultura, de um projeto ou de uma instituição política. Não há, portanto, nenhuma “necessidade histórica” em nome da qual se deva cumprir o mal, não há fim que justifique, como meio, um ato de inimizades. Na verdadeira política, os fins não justificam os meios, mas todo meio deve ser bom em si se quiser aproximar o objetivo político da unidade. Assim, não posso, por exemplo, comprar os votos, ou obtê-los em troca de favores pessoais ou de grupo, ou promoter coisas que não poderei realizar, na ilusão de que, uma vez alcançado o poder, minha ação política realizará um bem maior do que o mal feito anteriormente. Os meios empregados condicionarão profundamente minha ação seguinte. Demonizar o adversário e recorrer a meios desonestos não só desqualifica humanamente quem faz isso, mas compromete sua capacidade política.
É principio importante de filosofia da historia, que guia as ações autenticamente políticas: o bem só pode ser produzido a partir do bem. O mal contribui de modo algum no objetivo da política a não ser pelo efeito de provocar nas pessoas mais generosas, por reação a ele, uma vontade ainda maior de bem.
Portanto, o inimigo externo não é necessário para a ação política. O fato é que o inimigo, antes de estar fora de nós, é uma dimensão interior. Carl Schimitt(6) tinha construído toda a sua teorização política com base na categoria do “inimigo” externo. A dura experiência da tragédia alemã, das acusações infames, dos anos na prisão levou-o a destilar, a partir do próprio sofrimento, uma mensagem mais profunda: “O inimigo é a personificação do nosso próprio problema” (Shimitt, 1977, p.92). Acontece na política que dividimos a humanidade fora de nós porque estamos divididos interiormente, e as duas divisões criam um circulo vicioso que as alimenta.
É assim que se produz a alienação política especifica que frequentemente predomina no cenário atual. As divisões políticas são muitas vezes, formas de alienação. Duas partes em conflito são alienadas de si mesmas por se separarem uma da outra; a cada uma falta a outra, que é parte de si. E mergulhando no conflito, afastam-se do objetivo final, pois uma parte, ao se separar da outra, distancia-se do próprio objetivo original, separa-se do todo, da realidade da unidade humana que se sustém.
No movimento Político pela Unidade comprávamos que é possível romper esse circulo. São efetivamente muitas as alienações reais que golpeiam um ou outro direito humano. A alienação econômica ainda aflige as categorias sociais mais frágeis, inclusive nos paises ricos, e condena povos inteiros ao subdesenvolvimento. Ela é freqüentemente acompanhada pela alienação cultural, que impede a obtenção dos recursos do saber. É sempre mais difundida e perigosa uma espécie de “alienação dos ricos”, que, por conta do fechamento egoísta e da insensibilidade dos outros, e leva à perda dos verdadeiros significados e valores da vida. Mas a alienação fundamental, que muitas vezes acompanha e sustenta todas as outras, é a alienação interior, que consiste na incapacidade de se doar a si mesmo a uma outra pessoa, a uma tarefa, a um ideal. Somente quem se doa demonstra possuir-se, demonstra não ser alienado. Constatamos que, especialmente, é o político que se pede a seguinte escolha fundamental, que supera a alienação: o dom de si. É essa a única motivação para o engajamento político que se mostra adequada à grandeza do objetivo. É essa escolha que torna cada político maior do aquilo que conseguira realizar e dá uma luz de imensidão a cada gesto mais pequeno seu. O político que se dá, que se entrega ao ideal da fraternidade, está conciliado em si mesmo, é guardião autentico do desígnio que carrega em si, justamente porque este desígnio só se exprime mediante sua realização com os demais. É a escuta dos outros e o dialogo com eles que revela plena e racionalmente o desígnio, inclusive aos olhos daquele que, originalmente, o propõe.
Podemos facilmente ser acusados de ingenuidades por sustentarmos essas idéias. Foi o que aconteceu com o primeiro político do Movimento, Igino Giordani. Mas justamente pela pureza de sua opção, a figura e o pensamento dele continuam, ainda hoje, a fascinar quem quer dar à política – na forma como se apresenta – não fascina quem quer dar à própria existência uma finalidade elevada. É chegado momento de cumprir, ou renovar, esse ato de amor com o qual nós nos doamos à polis. A ingenuidade não o torna menos verdadeiro e menos necessário. Que esses “ingênuos” aprendam a se reconhecerem entre si e a apoiarem-se concretamente, na esfera privada e na pública, para além das diferentes filiações partidárias. Se vivermos a fraternidade entre nós, vamos nos tornar, juntos, guardiões do desígnio comum, viveremos já entre nós a realidade da unidade que queremos levar à humanidade.
Mas, fora esses casos, existe em todo “outro” da política, para alem de possíveis erros, algo que vale, que no fim, no desígnio cumprido da humanidade, permanecera. É o motivo profundo que o impeliu para a política, são seus valores, dos quais não pode prescindir, porque é com eles que os meus se completam.
O outro na política não é o inimigo. Pode tornar-se, se assim quisermos, mas, antes de tudo e essencialmente, ele é aquele do qual necessito, pois minha idéia só se realiza com ele. É afim de percorrer esse caminho comum que a fraternidade requer que seja ordenada na política. A política não se tornou necessária porque o mal existe e os conflitos são inevitáveis. O mal e os conflitos existem – e a política deve necessariamente enfrenta-la – mas, antes deles, é a fraternidade que exige a organização política. A política nasce não por temor ao inimigo, mas pelo amor ao amigo.
Só vêem o inimigo como necessário aquelas posições ideológicas que, por terem perdido a própria força ou por não serem portadoras de um projeto realmente humano, precisam do conflito para se alimentarem e do inimigo para se afirmarem,em oposição à própria identidade. O inimigo, a violência (inclusive aquela apenas verbal ou teórica) e o mal não são necessários. Podem ser inevitáveis, no sentido de que, em certas situações, não podemos impedir os outros de fazerem o mal e de se comportarem como inimigos. Mas os inimigos não são necessários para a construção de uma cultura, de um projeto ou de uma instituição política. Não há, portanto, nenhuma “necessidade histórica” em nome da qual se deva cumprir o mal, não há fim que justifique, como meio, um ato de inimizades. Na verdadeira política, os fins não justificam os meios, mas todo meio deve ser bom em si se quiser aproximar o objetivo político da unidade. Assim, não posso, por exemplo, comprar os votos, ou obtê-los em troca de favores pessoais ou de grupo, ou promoter coisas que não poderei realizar, na ilusão de que, uma vez alcançado o poder, minha ação política realizará um bem maior do que o mal feito anteriormente. Os meios empregados condicionarão profundamente minha ação seguinte. Demonizar o adversário e recorrer a meios desonestos não só desqualifica humanamente quem faz isso, mas compromete sua capacidade política.
É principio importante de filosofia da historia, que guia as ações autenticamente políticas: o bem só pode ser produzido a partir do bem. O mal contribui de modo algum no objetivo da política a não ser pelo efeito de provocar nas pessoas mais generosas, por reação a ele, uma vontade ainda maior de bem.
Portanto, o inimigo externo não é necessário para a ação política. O fato é que o inimigo, antes de estar fora de nós, é uma dimensão interior. Carl Schimitt(6) tinha construído toda a sua teorização política com base na categoria do “inimigo” externo. A dura experiência da tragédia alemã, das acusações infames, dos anos na prisão levou-o a destilar, a partir do próprio sofrimento, uma mensagem mais profunda: “O inimigo é a personificação do nosso próprio problema” (Shimitt, 1977, p.92). Acontece na política que dividimos a humanidade fora de nós porque estamos divididos interiormente, e as duas divisões criam um circulo vicioso que as alimenta.
É assim que se produz a alienação política especifica que frequentemente predomina no cenário atual. As divisões políticas são muitas vezes, formas de alienação. Duas partes em conflito são alienadas de si mesmas por se separarem uma da outra; a cada uma falta a outra, que é parte de si. E mergulhando no conflito, afastam-se do objetivo final, pois uma parte, ao se separar da outra, distancia-se do próprio objetivo original, separa-se do todo, da realidade da unidade humana que se sustém.
No movimento Político pela Unidade comprávamos que é possível romper esse circulo. São efetivamente muitas as alienações reais que golpeiam um ou outro direito humano. A alienação econômica ainda aflige as categorias sociais mais frágeis, inclusive nos paises ricos, e condena povos inteiros ao subdesenvolvimento. Ela é freqüentemente acompanhada pela alienação cultural, que impede a obtenção dos recursos do saber. É sempre mais difundida e perigosa uma espécie de “alienação dos ricos”, que, por conta do fechamento egoísta e da insensibilidade dos outros, e leva à perda dos verdadeiros significados e valores da vida. Mas a alienação fundamental, que muitas vezes acompanha e sustenta todas as outras, é a alienação interior, que consiste na incapacidade de se doar a si mesmo a uma outra pessoa, a uma tarefa, a um ideal. Somente quem se doa demonstra possuir-se, demonstra não ser alienado. Constatamos que, especialmente, é o político que se pede a seguinte escolha fundamental, que supera a alienação: o dom de si. É essa a única motivação para o engajamento político que se mostra adequada à grandeza do objetivo. É essa escolha que torna cada político maior do aquilo que conseguira realizar e dá uma luz de imensidão a cada gesto mais pequeno seu. O político que se dá, que se entrega ao ideal da fraternidade, está conciliado em si mesmo, é guardião autentico do desígnio que carrega em si, justamente porque este desígnio só se exprime mediante sua realização com os demais. É a escuta dos outros e o dialogo com eles que revela plena e racionalmente o desígnio, inclusive aos olhos daquele que, originalmente, o propõe.
Podemos facilmente ser acusados de ingenuidades por sustentarmos essas idéias. Foi o que aconteceu com o primeiro político do Movimento, Igino Giordani. Mas justamente pela pureza de sua opção, a figura e o pensamento dele continuam, ainda hoje, a fascinar quem quer dar à política – na forma como se apresenta – não fascina quem quer dar à própria existência uma finalidade elevada. É chegado momento de cumprir, ou renovar, esse ato de amor com o qual nós nos doamos à polis. A ingenuidade não o torna menos verdadeiro e menos necessário. Que esses “ingênuos” aprendam a se reconhecerem entre si e a apoiarem-se concretamente, na esfera privada e na pública, para além das diferentes filiações partidárias. Se vivermos a fraternidade entre nós, vamos nos tornar, juntos, guardiões do desígnio comum, viveremos já entre nós a realidade da unidade que queremos levar à humanidade.
(Baggio, Antonio Maria, Reflexões para a Vida Publica – Cidade Nova – p. 34-38)
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